Cinco poemas de Odylia Almacave

Ouvido de Deus

Oração:
conversa que atravessa os evos
para posar de forma convidativa diante de mim.

O ouvido de Deus:
ainda na gênese do que foi e do que é
dito indiferente na ausência da voz, nunca do gesto

Sessão de Terapia

Durante uma sessão de terapia eu vi dentro de mim
um jardim anuviado
onde uma luz diáfana entrava vagarosa
sem nenhuma pressa
enquanto eu falava
iluminando tudo, aos poucos:
as formas de não ser o resultado
da minha infância
como me tornar alguém que cuida das raízes
das árvores serradas

Fico ali, então.
No limiar entre o trauma e a luz
uma abelha aguardando o desanuviar para ir
encontrar as flores.

Fogos de artifício

Fogos de artifício preto
fumando no meu céu umbroso:
é assim que a alegria funciona dentro de mim.
Faz barulho, intercepta faíscas
ilumina as coisas que deram certo
na prateleira da fé
mas hão de desistir da briga
para se manterem expostas no céu
por saber ser em vão.

Ruir

Gosto tanto de ver uma árvore
aos poucos
apodrecer
que prazer vem do observar ruir
coisas que me dizem:
estive por muito tempo aqui.
Coisas que provam ser possível suportar
até o fim
até o momento em que bastaria uma inspiração
para se transformar em pó.

Mas há também a grande vontade
de que alguns não pudessem ser fortes
quando há uma pena desbotada
dentro da gaiola.

Massa Cinzenta

Gosto da ideia de um céu
porque o vejo poupado da existência da dor.
Gosto do meu quarto
porque nesse espaço nenhum dente desune
a carne de nenhum osso.
No entanto,
a dor poderia ser despontada em meu quarto
se assim eu quisesse.

Então eu gosto da ideia de um céu
onde qualquer possibilidade é coberta
por uma massa cinzenta
do tipo que engole os contornos da terra bruta
um cimento chamado Deus
que poupa a florzinha
o animalzinho:
deixa-os viver em paz.

Odylia Almacave nasceu e cresceu em Goiânia. Atualmente, leciona em escolas de San Diego. Publicou seu primeiro livro de poemas Seus ferimentos têm um nome com a editora Paraquedas.

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