Cinco poemas de Luiza Leite Ferreira

Um poema

Sou um poema de rimas pobres
cujos versos não formam estrofes
tropeço na escansão
troco os pés pelos metros
sei pouco de gramática
menos ainda de métrica
— mas não deixo de ser
um poema


Domingo à noite

você pegou a minha mão
para atravessar a rua
olhou para os dois lados
e corremos pela noite escura
ao chegar do outro lado
quis devolver a minha mão
não deixei


Pas de deux

Não há melhor tradução para o ato amoroso
que o pas de deux do Quebra-Nozes
um dedilhar de cordas suave
uma cosquinha gostosa
um crescendo gradual
preenchendo todo o peito
uma explosão de sopros
tingindo tudo em volta
uma revolução de sons
que pede repetição
os mesmos passos
de novo e de novo
até explodir
mais uma vez
e mais
e sempre


Fragmentos

Depois da herança distribuída
das roupas doadas
do armário esvaziado
sobram peças soltas

Um brinco sem par
um broche quebrado
um relógio parado

Fragmentos de um quebra-cabeça
para sempre incompleto

Cada vida abreviada
é uma narrativa inacabada


Hoje é o seu dia

Nada mais solitário
que apenas e-mails marketing
lembrarem do seu aniversário

Luiza Leite Ferreira é autora dos livros de poesia “É na cacofonia que eu me escuto” (Caravana, 2022) e “Amor Recreativo” (Patuá, 2023). Jornalista e mestranda em Estudos de Literatura pela UFF, atua como tradutora e revisora, integra o Coletivo Escreviventes, o portal Fazia Poesia e é curadora do clube de leitura Casa das Poetas. Escreve regularmente em luizaluiza.substack.com e leialuiza.wordpress.com.

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