O Cotidiano como Laboratório da Linguagem em “Escova de dentes”, de Cris Oliveira

Com publicação pela editora Paraquedas, livro destrincha temas universais a partir da experimentação poética. 

Estreia na poesia da bibliotecária e escritora paulistana Cris Oliveira, que atualmente reside em Genebra, na Suíça, “Escova de dentes” lança um olhar peculiar às sutilezas da vida. Em um trabalho minucioso, que explora ritmo, sonoridade e imagem, a proposta da obra pode parecer, inicialmente, contraditória ao abordar aquilo que é simples e cotidiano. Entretanto, é justamente a partir destes dois aspectos que se concebe a originalidade da obra, caracterizada por uma leveza perspicaz, dotada daquilo que coloquialmente dá-se o nome de “sacada”.

Isto se observa, por exemplo, no poema “artifício poético” (p. 67), que diz: “comendo / pão com azeite / extravirgem / pensando / como é possível se fazer / mais virgem que virgem”. Tratando de uma situação comum e cotidiana, observa-se que o título, “artifício poético”, produz uma quebra, sugerindo um caminho mais profundo à leitura do poema. 

Atentando-se à construção do texto, pode-se dizer que o eu-lírico parece tecer uma reflexão a partir do termo “extravirgem”, que não pode ser usado, por exemplo, para referir-se a uma pessoa. Oliveira, porém, burla essa impossibilidade ao questionar se é possível fazer-se “mais virgem que virgem”. 

Relacionando essa análise ao título, “artifício poético”, entende-se que a autora está experimentando, por meio da poesia, a torção e ressignificação da linguagem através da poesia, que atribui à situação cotidiana um aspecto mais reflexivo, metalinguístico sem, entretanto, desvalorizar ou tornar o pão com azeite um mero pano de fundo.

Pensando a formulação a respeito da poesia de Ezra Pound em “ABC da Literatura”, o poema de Cris Oliveira se destaca tanto pela logopeia (capacidade de reflexão a nível intelectual) quanto pela fanopeia (a força das imagens), sendo um aspecto imprescindível para o outro. Sem a imagem com o pão com azeite, a ideia de “se fazer / mais virgem que virgem” perde o significado, porém, sem a indicação do título (“artifício poético”) o poema carregaria outros significados. 

Nesse sentido, vale ressaltar, ainda, a questão rítmica, reforçada por Oliveira a partir do trânsito entre outros idiomas, como se vê em poemas como “livre” (p. 79) “sou o que soul / sou o que sou”). Brincar com a proximidade sonora e a distância de significado das palavras propõe também um interessante jogo rítmico, que também questiona as possibilidades da linguagem.

Em suma, Cris Oliveira apresenta, em “Escova de dentes”, o cotidiano e a leveza como possibilidades de investigação que tomam a linguagem como centro, lançando um olhar poético minucioso, divertido e autêntico.

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