Dois poemas de Cassiano Figueiredo

dia do angu 

Quando se tem as mãos pequenas
e a curiosidade é a isca
de certo
ela é fisgada pela criaturinha.
As lâminas de aço
passeiam pelas pequenas pernas
na tentativa dos pelos
recém-nascidos
como suas ideias prematuras
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀[reproduzir o que a tia fez uns dias atrás]
caírem sobre o chão do banheiro.
O almoço estava sobre a mesa
— feijão, angu e carne moída —
não sabia se assoprava
as pernas ou o angu.
Choviam em sua cabeça
pensamentos confusos
e escorriam pelas pernas
gotas de arrependimento. 

Sinto que
as lâminas
ferem
minha epiderme
é hora de colocar
minhas próprias vestes.
Os pelos
saltam
é hora
de seguir.

(poema sem título)

naquela época era comum
criança preta
que não tinha o cabelo considerado bom
passar o pente um ou dois
eu nem entendia disso
e eu tinha preocupação?
mãos dadas
movimento para um lado
minha tia com um sorriso de canto
outra tia olhando para o lado
os dentes à mostra
não é bem um sorriso
se for
ele é desajeitado
apareço de costas
com meu tênis preferido
que brilha quando ando
(lembro bem dele)
visto calça jeans
uma blusa social
azul clarinho
(um azul forte do jeans
e o clarinho da blusa)
tenho um coração vermelho na bunda
celebro a vida
meu primo olha para o lado
(o que tanto tem nesse lado
que todo mundo cisma em olhar?)
é noite no terraço da minha vó maria
as bandeirinhas parecem flutuar no escuro
eu pareço deslizar com meu tênis novo
(será que arranhou naquele chão de cimento?)
estávamos de mãos dadas
e havia um brilho em nós
como se fôssemos as estrelas da noite
meu primo e minha tia
do sorriso que acho
que não é um
não pareciam estar curtindo tanto
a ideia de ser estrela.
o que se destaca
são as nossas carecas mesmo 

a gente tão inocente
e tão careca.

Cassiano Figueiredo tem 23 anos e é natural de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro. Licenciado em Letras Português-Inglês, colunista da Revista Ruído Manifesto, poeta, professor, preto, gay, omorixá (filho de Orixá), cartomante e canceriano. Atualmente, encontra-se no processo de organização do seu primeiro livro de poemas “Versos tecidos com fios d’água”.

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